Vai por mim beijar Lisboa

Vai por mim beijar Lisboa

Disse sempre que não sabia porque tinha ido parar à Tuna Académica de Lisboa. Continuo a não saber.

Tinha ouvido falar na Voz D’Operário vezes sem conta e não fazia ideia sequer de que era uma escola. Muito menos de que era uma casa para tanta coisa. À exceção daquela entrada de azulejos de pedra, naquela noite de Outubro todo o soalho rangia como um velho de 120 anos a queixar-se de reumático. Um velho à frente do seu tempo que se fartara de lutar por tudo e por todos e que teimava em erguer-se entre S. Vicente e a Graça para nos lembrar de que é preciso perseverar para chegar a tudo o que é maior.

Trouxe este Zé Kalanga para ver o ensaio”, disse-se: não houve outro nome para mim durante mais de dez anos. Era um dia pior que muitos e não sei porque mantive o compromisso de ali aparecer naquele dia, de todos os dias. E então eles cantaram e continuei a não saber porque lá fui. Mas soube porque queria voltar. O resto é uma história feita de muitas histórias, pequenas e grandes, só minhas e com todos, tantos e tão poucos. Muitas noites. Muito teste à paciência, resistência à frustração e ao medo de falhar, como só aquilo que exige de nós o melhor que somos pode dar. Muito trabalho que não cai na conta, muito tempo que não volta nunca. E depois nervoso miudinho, ensaios que nunca são suficientes, mesmo que infinitos, o calor insuportável do palco e das luzes e da fé de que não estamos sós. E depois sorrisos. Depois ser o que nascemos para ser. Depois fazer o que fomos ali fazer e levarmos Lisboa connosco e as pessoas connosco para Lisboa. E depois saber que o que levámos de volta foi bem mais que o que trazíamos. Bem mais. E depois saber que quem faz isto connosco esteve connosco numa luta sem armas e sem inimigos que não o vazio e o insignificante. Companheiros de uma luta por algo mais belo e maior. Que nos transcende e nos ultrapassa mas não vive sem nós, sem tudo o que temos e somos. Seja no vão de escada ou no Coliseu.

Conto estas histórias, vezes sem conta. Muitas vezes com quem as viveu, mais ainda com quem já as ouviu antes. Não consigo, na maior parte dos casos, explicar como estas histórias, odisseias e tarefas hercúleas fizeram de mim quem sou. O melhor que sou. Como nenhum de nós volta a ser o mesmo depois disto.

Disse sempre que não sabia porque tinha ido parar à Tuna Académica de Lisboa. Continuo a não saber. Mas soube sempre porque fiquei e porque estarei sempre lá, mesmo quando não estou.

Crónica por Daniel “Zé Kalanga” Orge

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